como publicar

O que é preciso para publicar em periódicos de alto impacto?

Pesquisadora do PPGCOM, Maria Ayeska Andrade Echegaray, conta sua experiência de publicar em revista após o término do mestrado.

Em 2025, a pesquisadora Maria Ayeska Andrade Echegaray concluiu o mestrado no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFG (PPGCOM-UFG) com a dissertação "Além da câmara de eco: desvendando mitos e verdades sobre o consumo informacional dos brasileiros na pandemia de Covid-19".

Parte dessa investigação foi posteriormente publicada sob a forma de artigo na revista Estudos em Jornalismo e Mídia (EJM), periódico do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). O texto é assinado em coautoria com o professor Dr. Pedro Mundim, orientador da pesquisa.

Segundo a pesquisadora, a experiência de transformar a dissertação em artigo foi, ao mesmo tempo, estimulante e desafiadora. "A gente precisa estar atento ao recorte da pesquisa que traga algo realmente inovador e que vai despertar o interesse do campo da Comunicação e gerar debates", comenta Echegaray.

A observação evidencia uma das principais diferenças entre uma dissertação e um artigo científico. Enquanto a primeira busca apresentar uma investigação de forma ampla e detalhada, o artigo exige um argumento central bem delimitado, capaz de apresentar uma contribuição original em poucas páginas. 

Por isso, transformar uma dissertação em artigo não significa resumir o texto original, mas reconstruí-lo a partir de um novo recorte analítico. "O artigo não é um resumo da sua dissertação ou tese, é um novo olhar sobre aquela pesquisa e pode até trazer algo novo ou uma crítica ao trabalho", resume.

O episódio, portanto, oferece a oportunidade para tratar de um tema de interesse direto para mestrandos e doutorandos do programa: os critérios que atualmente definem o que é considerado um periódico de alto impacto na área de Comunicação, e o que é exigido para que uma pesquisa acadêmica se converta em artigo publicável.

Para compreender esses critérios, é preciso, antes de tudo, reconhecer que o cenário de avaliação da produção científica brasileira vem passando por uma transformação significativa.

O que define um periódico de alto impacto

Por décadas, o principal parâmetro utilizado no Brasil para medir o peso de um periódico científico foi o Qualis Periódicos, sistema mantido pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), que classificava as revistas, por área de avaliação, em estratos que iam de A1, o mais elevado, a C. 

Esse modelo está em transformação: a última classificação por periódico foi a referente ao quadriênio 2021-2024, divulgada em janeiro de 2026. A partir do ciclo avaliativo 2025-2028, a Capes tomou a decisão de descontinuar esse formato.

Em seu lugar, agora passa a vigorar um modelo mais granular, estruturado em três procedimentos de avaliação que cada área do conhecimento pode adotar de forma isolada ou combinada. O primeiro procedimento preserva uma lógica próxima à do antigo Qualis, mas aplica indicadores bibliométricos, como percentis de CiteScore/Scopus ou de fator de impacto/JCR, ao artigo individualmente, e não mais ao periódico como um todo.

O segundo combina essa análise bibliométrica a uma avaliação qualitativa do periódico em que o texto foi publicado. Já o terceiro procedimento, conhecido como TRS, propõe uma avaliação qualitativa de um recorte representativo da produção do programa, com ênfase no avanço conceitual do trabalho e menor dependência de métricas bibliométricas.

Ainda assim, a direção da mudança já é evidente: o critério de avaliação está se deslocando da pergunta "em qual periódico o artigo foi publicado" para "qual é a qualidade, o rigor e a relevância, inclusive social, deste artigo específico".

Da pesquisa acadêmica ao artigo científico

Um artigo científico, em geral entre 15 e 25 páginas, precisa se sustentar em um único argumento central, bem delimitado. Esse formato exige, em primeiro lugar, a escolha de um recorte específico da pesquisa. Cabe ao autor ou à autora decidir qual parte do trabalho carrega a contribuição mais forte e original.

Há, contudo, uma ressalva quanto ao aproveitamento desses textos. "Outro erro comum é usar o mesmo artigo que você apresentou num evento", adverte Echegaray. "Até pode ser o mesmo tema, mas de outra perspectiva: original."

Além disso, recomenda-se que o primeiro artigo derivado de uma dissertação seja assinado em coautoria com o orientador ou a orientadora, reconhecendo o acompanhamento dado à pesquisa desde sua concepção. Foi o que ocorreu no caso relatado aqui.

"Eu me considero com muita sorte por ter tido um orientador muito parceiro tanto durante a dissertação quanto na escrita e submissão do artigo", conta a pesquisadora. 

Outro detalhe, desse modo, seria a escolha do periódico para submissão, que deve ser criteriosa, e antecede, em importância, a própria redação do artigo. Recomenda-se a leitura dos números mais recentes da publicação, de modo a verificar se o tema e a abordagem do texto dialogam efetivamente com o que a revista já publica. "Devemos estar atentos ao escopo da revista e o que vai encaixar melhor nas diretrizes. Isso facilita o aceite", observa Echegaray.

Nessa etapa, novamente, a orientação faz diferença. Como comenta a pesquisadora, "o orientador é fundamental para te alertar qual revista é mais relevante e que encaixa melhor com o seu trabalho."

Atenção a periódicos com práticas predatórias

A pressão institucional por publicação tem como efeito colateral o crescimento de periódicos que cobram para publicar praticamente qualquer conteúdo, sem a realização de revisão por pares efetiva. Alguns indícios costumam sinalizar essa prática: convites não solicitados, recebidos por e-mail e acompanhados de elogios genéricos ao perfil do pesquisador; promessas de publicação em prazos de poucos dias ou semanas; processos de revisão por pares vagos, automatizados ou inexistentes; alegações de indexação em bases como Scopus ou Web of Science que não se confirmam mediante consulta direta a essas bases; ausência de ISSN válido; volume elevado de artigos publicados por edição, sem critério aparente de seleção; e, com frequência, erros de revisão textual, diagramação malfeita ou links inoperantes no site da publicação.

Por si só, a cobrança de taxa de publicação, destinada a custear o acesso aberto, não constitui, isoladamente, indício de periódico predatório, uma vez que essa prática é adotada também por publicações sérias. O problema reside na combinação desses sinais, sobretudo na ausência de revisão por pares real. Em caso de dúvida, a orientação mais segura permanece a mesma: consultar o orientador ou a orientadora antes de submeter qualquer trabalho.

 

Por Isis Borges